Imagine seu dinheiro rendendo por mais de 3.000 anos. A oliveira que atravessa milênios e produzindo

A oliveira que atravessa milênios: quando a riqueza vem da terra. Imagine seu dinheiro rendendo por mais de 3.000 anos. Parece impossível. Mas existe, em Creta, uma árvore que nos permite pensar exatamente assim.

O DINHEIRO ANTES DO DINHEIRO

Equipe Brazilian Ambient

8/26/20263 min ler

pé de oliveira com 3000 anos na ilha de creta e ainda produzindo
pé de oliveira com 3000 anos na ilha de creta e ainda produzindo

A oliveira que atravessa milênios: quando a riqueza vem da terra

Imagine seu dinheiro rendendo por mais de 3.000 anos.

Parece impossível. Mas existe, em Creta, uma árvore que nos permite pensar exatamente assim.

Na pequena vila de Ano Vouves, na ilha grega de Creta, encontra-se a Oliveira Monumental de Vouves, uma das mais antigas oliveiras produtoras conhecidas. Sua idade é estimada em milhares de anos — frequentemente entre 3.000 e 5.000 anos, embora não seja possível estabelecer uma idade exata com segurança. O interior do tronco perdeu grande parte da madeira original, o que dificulta uma datação convencional.

E há algo ainda mais impressionante: ela continua viva e produzindo azeitonas.

Uma árvore que não simplesmente envelheceu

O enorme tronco, retorcido e parcialmente oco, parece mais uma escultura do que uma árvore. Sua circunferência chega a aproximadamente 12,5 metros, com diâmetro de cerca de 4,6 metros segundo registros do Museu da Oliveira de Vouves.

Mas a história biológica dessa oliveira é ainda mais interessante.

Um estudo publicado na revista científica Plants analisou geneticamente diferentes partes da árvore. Os pesquisadores descobriram que as amostras retiradas da parte inferior e da parte superior tinham origens genéticas diferentes, demonstrando que a árvore foi enxertada pelo menos uma vez. A parte inferior apresenta características relacionadas à oliveira-brava, enquanto a parte superior está geneticamente relacionada à cultivar grega Mastoidis.

Isso muda um pouco a maneira de imaginar uma árvore milenar.

Não significa que uma mesma copa permaneceu intacta durante quatro milênios. Oliveiras possuem uma extraordinária capacidade de regeneração e podem sobreviver a intervenções, podas severas e renovação de sua estrutura. No caso de Vouves, a árvore que vemos hoje é resultado de uma história muito mais complexa: uma base ancestral que recebeu material vegetal cultivado e continuou a se desenvolver ao longo dos séculos.

É quase como se a árvore tivesse aprendido a sobreviver ao próprio tempo.

E onde entra o dinheiro?

Muito antes de ações, títulos, bancos ou moedas modernas, riqueza significava possuir aquilo que tinha utilidade, podia ser armazenado, transportado ou trocado.

E poucas plantas foram tão importantes para as sociedades mediterrâneas quanto a oliveira.

O azeite servia para alimentação, iluminação, cuidados pessoais, preparação de produtos e diversas atividades do cotidiano. Na antiga Creta, evidências arqueológicas demonstram o uso do azeite há milhares de anos, muito antes da formação dos sistemas econômicos modernos.

O azeite também era uma mercadoria de comércio. Seu armazenamento e transporte eram realizados em recipientes próprios, e vestígios arqueológicos permitem reconstruir antigas redes de circulação desse produto pelo Mediterrâneo.

Por isso, é importante fazer uma distinção:

o azeite não era simplesmente “dinheiro”.

Ele era algo talvez mais fundamental:

era riqueza.

Uma oliveira produtiva podia representar alimento, iluminação, comércio, trabalho e patrimônio.

Uma riqueza que se renova

Talvez seja essa a parte mais fascinante da história.

Uma moeda pode desaparecer. Uma safra termina. Uma mercadoria é consumida.

Mas uma oliveira pode produzir novamente.

Ano após ano.

Geração após geração.

E, quando bem cuidada, pode continuar produzindo durante períodos de tempo que ultrapassam completamente a experiência de uma vida humana.

A oliveira de Vouves continua sendo produtiva, embora não exista uma série histórica confiável que permita afirmar quanto ela produzia há mil, dois mil ou três mil anos, nem comparar sua produção atual com a de sua juventude.

Por isso, talvez seja mais correto pensar nela não como uma simples árvore antiga, mas como um patrimônio vivo.

Uma árvore que chegou aos nossos dias

A relação da oliveira de Vouves com a história também ultrapassou a própria Creta.

Ramos da árvore foram utilizados para confeccionar coroas de oliveira destinadas aos vencedores dos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, retomando uma tradição associada à Grécia antiga.

É uma imagem poderosa: uma árvore que pode ter começado sua história milhares de anos antes de Cristo fornecendo frutos e madeira e que, milhares de anos depois, ainda participa simbolicamente de uma das maiores celebrações esportivas do mundo.

Dinheiro antes do dinheiro

Quando pensamos em dinheiro, normalmente imaginamos moedas, cédulas ou números em uma conta bancária.

Mas a história econômica começou muito antes disso.

Antes de o dinheiro representar a riqueza, muitas vezes a própria riqueza estava na terra.

Uma plantação, um rebanho, uma colheita, uma árvore produtiva.

A oliveira de Vouves nos lembra disso de uma maneira extraordinária.

Porque talvez o investimento mais antigo do mundo não fosse uma moeda.

Era uma árvore.

E ela continua pagando dividendos — em azeitonas — milhares de anos depois.

Fonte de Consulta: https://www.mdpi.com/2223-7747/10/11/2374?